Modelos de inteligência.

Quando criança,ficava indignada ao ouvir uma pessoa chamar outra de ‘burra’. Para mim, burrice era o mesmo que completa falta de inteligência: - Impossível!, pensava, -Todo mundo é inteligente! Mal sabia que estava, de alguma forma, correta.A inteligência está presente em todos, embora não na mesma quantidade. A inteligência segue, de forma quase perfeita, uma distribuição normal - o que significa que alguns poucos indivíduos apresentam uma quantidade inferior  ou superior de inteligência e que muitos indivíduos apresentam uma quantidade média de inteligência.

A quantidade de indivíduos com uma inteligência muito baixa (dois desvios-padrão abaixo da média, à esquerda na curva normal) provavelmente apresentem retardo mental. Por outro lado, a quantidade de indivíduos com uma inteligência muito alta (dois desvios-padrão acima da média, à direita na curva normal) provavelmente sejam superdotados. Mas, afinal, em que consiste o retardo ou a superdotação? Para compreender tais quadros, é, antes, preciso compreender o que é a inteligência. Sem dúvidas, este foi um dos desafios da psicologia que, penso, ainda não foi totalmente superado.

O conceito de inteligência vem sendo pesquisado, especialmente, pela psicometria - área da psicologia interessada na mensuração de construtos, principalmente sobre forma de testes, podendo, assim, identificar as diferenças individuais. Formaram-se, através de pesquisas, diversos modelos de inteligência - alguns tidos como complementares, outros tidos como opostos. Dentre os modelos de inteligência, destacam-se os de Spearman, de Thurstone, de Vernon, de Guilford, de Cattel e de Carroll.

Charles Spearman foi um grande psicológo, especialmente interessado em cognição e em estatística. Na estatística, é lembrado pelos seus trabalhos na análise fatorial e na correlação, sendo o responsável pelo coefíciente rho de correlação - conhecido como rho de Spearman, utilizado para distribuições não normais.

Spearman formulou o conceito de inteligência geral (g). O fator g, componente de inteligência, seria uma “aptidão geral ou global que incide no sucesso e no bom rendimento” (Andrés-Pueyo, A., 2006). Por ser geral, todos os indivíduos apresentariam-no, ainda que em poucas quantidades. Além disso, para Spearman o fator g estaria ligado a algum tipo de “energia mental”.

Além da inteligência geral, haveria inteligências específicas (s). Os fatores específicos se referem às capacidades especiais de cada indíviduo - matemática, teatro, música…- e girariam em torno de g.

Por ser composta por 2 fatores, g e s, o modelo de Spearman é conhecido como “Modelo Bifatorial de Inteligência”, sendo muito utilizado. Em exemplo, observa-se que um dos testes de inteligência mais utilizados mundialmente - as Matrizes Progressivas de Raven - é baseado em tal modelo, esquematizado a seguir.

Modelo bifatorial de inteligência

Louis Leon Thurstone foi outro importante teórico acerca da inteligência. Um fato interessante sobre ele é a sua ligação com a engenharia mecânica - talvez por isso o interesse pela medida.Em seus estudos foram, também, utilizadas análises fatoriais, porém, com metodologia diferente da utilizada por Spearman.

Thurstone não acreditava em um fator geral de inteligência, mas, sim, em capacidades diversas utilizadas de acordo com a natureza do problema a ser resolvido. Por isso, seu modelo ficou conhecido com o nome de “Modelo de Aptidões Mentais Primárias”, sendo 7 aptidões:

  1. Compreensão verbal
  2. Fluência verbal
  3. Numérica
  4. Espacial
  5. Memória
  6. Velocidade perceptual
  7. Raciocínio

Diversos testes psicológicos abordam tais fatores, até mesmo alguns subtestes das escalas Wechsler de inteligência.

Apesar de muito importante, o modelo de Thurstone parece não ser mais aclamado que o de Spearman. Um dos alunos de Spearman, Burt, acreditava em fatores intermediários de inteligência, que estairam entre g e s. Seus trabalhos permitiram a realização de análises fatoriais múltiplas, e consequente formulação de modelos hierárquicos de inteligência.

Um dos primeiros modelos hierárquicos de inteligência foi o de Vernon. Em seu modelo, a inteligência geral encontra-se no topo da hierarquia, seguida pelo fator V:ED (verbal-educativo) e pelo fator K:M (mecânico-espacial). V:ED agrupava subfatores como criatividade, aptidão matemática e verbal, e K:M agrupava subfatores como capacidade espacial e coordenação motora.

Outro modelo de inteligência é o de Estrutura do Intelecto, elaborado por Guilford.  Neste modelo, a inteligência constituiria-se de 120 aptidões, que refletiriam a interseção entre operações mentais, conteúdos e produtos.

Um modelo muito usado de inteligência é o de Cattell. Para ele, haveria a Inteligência Fluida (Gf) e a Inteligência Cristalizada (Gc).

  • A inteligência fluida é caracterizada pela capacidade básica de resolução de problemas novos, não dependendo da cultura, mas, sim, das capacidades de raciocínio. Ela diminuiria ao longo do desenvolvimento
  • A inteligência cristalizada é caracterizada pela capacidade de se utilizar adequadamente o conhecimento adquirido, dependendo da cultura e de capacidades verbais . Ela aumentaria ao longo do desenvolvimento.

A Gf tem alta correlação com o fator g, a ponto de muitos autores considerarem ambos construtos como um só. Ao longo de melhorias do estudo de Cattel, surgiram outros fatores:

  • Gv (fator de visualização): ligados à percepção e à manipulação viso-espacial.
  • Gr (fator de lembrança): ligado à velocidade de acesso a alguma memória.
  • Gs (fator de velocidade): ligado à velocidade/rapidez cognitiva.

Há de se convir que, o o fator g englobaria a Gf e a Gc, estas, por sua vez, estariam seguidas por fatores mais específicos, como os propostos por Thustone.

Há, também, a teoria de Carroll sobre a inteligência - que seria configurada em três estratos. Carroll utilizou um vasta gama de trabalhos científicos acerca da inteligência para formular suas teorias. Através desta revisão, Carroll fez análises fatoriais, chegando a um modelo que envolve três fatores, que se organizariam em estratos.

No primeiro estrato, encontrar-se-ia a inteligência geral, no segundo estrato, estariam: Gf (2f), Gc(2c), percepção visual ampla (2v), percepção auditiva ampla(2u), velocidade cognitiva geral (2s), capacidade ampla de lembrança (2r) e capacidade ampla de memória (2y).

A respeito do primeiro estrato, não há uma definição específica. Assim, ele envolveria, por exemplo, as proposições de Guilford ou aquelas como tempo de reação.

Outra questão importante sobre a inteligência é o QI. Segundo o Caio Fernando Abreu,  a falta de QI seria o mesmo que amor. Para os psicometristas, a falta de QI (entende-se aqui um QI baixo) seria retardo mental. A questão é que o QI é uma medida para qual não há definição específica. Uma vez, ouvi, de certo professor por quem tenho um enorme apreço, a seguinte definição de QI: “QI é aquilo que os testes de QI medem”. Ainda na primeira década do século XX, Alfred Binet, juntamente com Simon, procurou criar testes de medidas cognitivas, através dos quais seria possível identificar uma idade mental do indivíduo.O QI, inventado por William Stern, expressa a relação entre idade mental e idade cronológica, sendo a sua fórmula a seguinte (Pasquali,2001):

             QI = 100 (Idade Mental/Idade Cronológica)

sendo a idade mental medida através dos testes, pareando-se o desempenho de um indivíduo com o desempenho de grupos divididos por idade cronológica (por exemplo, se um indivíduo de 13 anos tivesse um resultado compatível com um grupo de indivíduos de 10 anos, esta seria a sua idade mental).

Apesar dos diversos modelos de inteligência, em uma definição mais geral, ela seria a capacidade de se resolver problemas, de forma eficaz, em um tempo hábil. Há, ainda, muita discussão sobre o que seria, de fato, a inteligência, por exemplo, em relação ao fato de a Gf ser ou não o mesmo que o fator g. Há, também, grande discussão a respeito da alta correlação entre o fator g e a memoria de trabalho - seriam tais construtos um só? Particularmente,gosto do modelo de inteligência fluida e cristalizada. Mas, a relação entre memória de trabalho e inteligência também me convence. De qualquer forma, a minha opinião já não tem tanta importância, não sou bem um modelo de inteligência.

Referências:

Andrés-Puyo, A. (2006). Modelos Psicométricos da Inteligência. In Florez-Menoza, C. & Colom, R. (2006) Introdução à Psicologia das Diferenças Individuais. Porto Alegre: Artmed

Pasquali,L. (2001).Testes Psicológicos: Conceitos, História, Tipos e Usos. in Pasquali, L. (2001). Técnicas de Exame Psicológico - TEP. São Palo: Casa do Psicólogo